15.03.2019 | 08h18


EDUARDO PÓVOAS

História de Cuiabá - Parte I

Nos 300 anos de Cuiabá, uma homenagem da minha família aos estudantes

Nos 300 anos da terra que amamos, a homenagem da minha família aos estudantes cuiabanos.

Fundação da cidade - Na primeira metade do século 18 várias “bandeiras” partiram de São Paulo com destino ao interior do país, com o objetivo de prear índios para escravizar.

Uma delas, sob a chefia do sertanista Pascoal Moreira Cabral, saindo de Porto Feliz, navegou pelas águas dos rios Tietê, Paraná, Pardo, Taquari, Paraguai e Cuiabá, até atingir a barra do rio Coxipó. Subindo este, travou combate com os “Coxiponés”, sendo por eles repelida.

Ao retrocederem para o baixo curso do rio encontraram os bandeirantes, pelas barrancas, granetes de ouro. Extasiados ante a quantidade do precioso metal, desinteressaram-se da caça aos selvagens, para se dedicarem à cata do ouro.

Imediatamente despachou o chefe Pascoal Moreira para São Paulo o Capitão Antonio Antunes Maciel, levando amostras do precioso achado, com a finalidade de transmitir a grande notícia ao Capitão General da capitania, - já que Mato Grosso pertencia então à Capitania de São Paulo -, e, em seguida, fundou uma povoação, às margens do rio Coxipó, sob a invocação de Nossa Senhora da Penha de França, a 8 de Abril de 1719.

A notícia da descoberta alvoroçou São Paulo e grandes comitivas se formaram para enfrentar a aventura que era a jornada para o novo Eldorado.

As Lavras do Sutil – Três anos depois, outro bandeirante, Miguel Sutil, encontrou ouro em terras situadas mais ao poente, na encosta do Morro da Prainha, nas imediações da atual igreja do Rosário.

Estavam descobertas as “Lavras do Sutil”, a mais extraordinária – mancha aurífera da qual até então se tivera notícia no Brasil.

Logo o “Arraial da Forquilha” existente nas margens do Coxipó se despovoou e toda a população se transferiu para o vale do ribeirão “Prainha”, onde o precioso metal aflorava em quantidade impressionante.

Elevação a vila – Tão grande foi o afluxo de caravanas de São Paulo para Cuiabá que o próprio Capitão General Rodrigo Cesar de Menezes deslocou-se de sua sede, no planalto de Piratininga, e veio para cá, para ver de perto as famosas minas e para fiscalizar a arrecadação dos impostos devidos à Coroa.

Chegando a 15 de Novembro de 1726, baixou ato, a 1º de janeiro de 1727 elevando a nova povoação à categoria de Vila, com o nome de Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

Criação da capitania – A atividade mineira se espraiou para outros pontos dos sertões de Cuiabá, para o norte até Diamantino e para oeste até às extremas da fronteira boliviana.

Tal fato, e a ameaça de um avanço dos espanhóis, que dominavam os altiplanos dos Andes, no sentido inverso, - do poente para o nascente -, determinou que em 1748 o Governo português criasse a capitania de mato Grosso, desligada da de São Paulo.

O primeiro Capitão General, Dom Antonio Rolim de Moura Tavares, recebeu instruções para plantar o Governo em posição estratégica da qual pudesse deter qualquer eventual avanço castelhano e, por isso, fundou Vila Bela da Santíssima Trindade em Março de 1752, às margens do rio Guaporé, erigindo-a em Capital da Capitania.

Sobrevivência de Cuiabá – A crônica de todos os garimpos comprova que, terminada a “influência”, pelo esgotamento das minas, as povoações se aniquilam e até mesmo desaparecem. Pode-se dizer que Cuiabá constitui uma das exceções a essa regra.

Entrando em decadência a atividade mineira, pela quase exaustão das minas, Cuiabá só não desapareceu por três motivos: a) porque o ouro nunca se esgotou inteiramente, existindo até hoje; b) porque a fertilidade das terras das margens do rio Cuiabá permitiram uma agricultura de manutenção que somada à abundância do peixe garantiu o fácil sustento da população; c) porque Cuiabá, pela sua posição geográfica, tornou-se ponto obrigatório de passagem para a Capital, que era Vila Bela.

Durante 67 anos Vila Bela foi a Capital da Capitania e da Província. O último Capitão General, Francisco de Paula Magessi Tavares de Carvalho, empossado em 1819, alegando a insalubridade da cidade do Guaporé, onde morreram, de febres, dois Capitães Generais e Vários funcionários do Governo, recusou-se a seguir para lá, governando de Cuiabá, assim transformada numa Capital de fato.

Oficialização de Cuiabá como Capital – Essa situação não mudou com o advento da independência do Brasil, em 1822, e os Presidentes da Província, nos anos do Primeiro Reinado, administraram de Cuiabá, até que em 1835 uma lei sancionada pelo Presidente Antonio Pedro de Alencastro oficializou a cidade como Capital.

A Rusga – Nesses conturbados anos do Primeiro Reinado um fato da maior importância ocorreu em Cuiabá: a matança de portugueses, durante um motim popular de inspiração nativista, sob o pretexto de que os “reinóis” desejavam a volta do Brasil ao domínio de Portugal.

O terrível evento de 30 de Maio de 1834 passou à História com o nome de “Rusga”.

O primeiro jornal - Em 1839 um acontecimento veio desde logo demonstrar que Cuiabá nascera predestinada a ser um centro de cultura: instalava-se a primeira tipografia de Mato Grosso, que passou a editar o jornal “THEMIS MATOGROSSENSE”. Assim, decorridos apenas 30 anos do aparecimento da imprensa no Brasil, Cuiabá já tinha o seu primeiro periódico.

A guerra da Tríplice Aliança – Com a declaração da maioridade de Dom Pedro II, em 1840, tem início o longo período do Segundo Reinado, durante o qual a cidade continuou sua lenta mas constante evolução, cerceada pelas dificuldades de transportes e de comunicações com a Capital do Império.

O fato mais importante do Segundo Reinado, na história de Cuiabá, foi a Guerra da Tríplice Aliança, que o Brasil sustentou contra a república do Paraguai.

Os paraguaios invadiram Mato Grosso com duas poderosas colunas militares, dominando quase todo o sul do antigo Estado e tentando um movimento de pinça que visava atingir Cuiabá. Todavia, a defesa organizada na Capital pelo Governo da Província e pelo Almirante Augusto Leverger – o Barão de Melgaço -, além dos imprevistos da própria guerra, demoveram-nos do seu intento de aqui chegar. Ficaram detidos em Coxim e nos pantanais de Corumbá.

Todavia Cuiabá foi o cérebro do qual emanaram todas as previdências para a resistência. Foi aqui que se organizou a expedição libertadora que sob o comando do marechal Antonio Maria Coelho realizou a façanha heroica da retomada de Corumbá, há dois anos e meio em poder do inimigo, feito exclusivamente civil e cuiabano, porque as forças foram integradas na sua quase totalidade por “voluntários da Pátria” recrutados em Cuiabá e vizinhanças. Do evento participaram duas mulheres cuiabanas, as heroínas D. Francisca de Sampaio Botelho e D. Marian Brasilina da Silva Barreto, que empunhando fuzis e baionetas, avançaram, lado a lado com os homens, contra as trincheiras inimigas.

Epidemia de Varíola – Logo após a retomada de Corumbá, a 13 de Junho de 1867, Cuiabá foi assolada por uma terrível epidemia de varíola, que havia sido introduzida em Corumbá pelos paraguaios e que ceifou grande parte da população da Capital.

Abolicionismo e República – Todos os movimentos que apaixonaram a alma nacional tiveram a maior repercussão em Cuiabá, a despeito da sua distância dos centros das grandes decisões nacionais. Assim foi com a independência, com o abolicionismo e com a República.

Três sociedades abolicionistas foram fundadas em Cuiabá e ficou célebre o movimento dos advogados que militavam no foro da cidade, que em Abril de 1888 firmaram um pacto de não mais aceitarem o patrocínio de nenhuma causa contra a liberdade de escravos e de aceitarem o patrocínio de nenhuma causa contra a liberdade de escravos e de aceitarem todas contra a escravidão.

Também o movimento republicano encontrou eco na Capital, onde foi lançado, em 1888, um Manifesto para a fundação de um Partido Republicano e onde surgiram dois jornais para a pregação dos novos ideais.

Revoluções – A cidade foi palco de diversos movimentos revolucionários ocorridos nos primeiros anos da República, para a sua consolidação. Registramos a de 1892, que depôs o Presidente Manoel José Murtinho, com a consequente contra revolução, chefiada por Generoso Ponce, que devolveu o poder a Murtinho, conhecida como “reposição da legalidade”. As agitações havidas no Governo do Cel. Alves de Barros culminaram na chacina da “Baía do Garcez”, onde foram trucidados 17 personalidades e cidadãos ligados à oposição. Esse agitado período termina com a revolução de 1906, também liderada por Generoso Ponce, com a colaboração de Pedro Celestino, quando se efetivou o cerco da capital pelas forças revolucionárias, encerrando-se o movimento com o assassinato do Presidente Antonio Paes de barros (o Totó Paes), que fugira da cidade.

Desenvolvimento Social - Com o termino da Guerra da Tríplice Aliança, contra o Paraguai, foi restabelecida a navegação no rio Paraguai, o que contribuiu para o desenvolvimento do comercio e para a vinda para mato Grosso, pela via fluvial do Prata, de construtores italianos e espanhóis que aqui implantaram um novo estilo arquitetônico, iniciando a transformação do aspecto urbanístico da cidade que até então era o de uma típica vila portuguesa do norte de Portugal, com seus sobrados e casas senhoriais.

A indústria extrativa da borracha, que atingiu o seu auge no país no início do século, também praticada nas matas do norte do Estado, impulsionou o desenvolvimento do comercio local: Cuiabá passou a comerciar diretamente com a Europa, exportando borracha e importando tecidos, utensílios domésticos, artigos manufaturados, vinho e cerveja. Vários bancos franceses, italianos e alemães instalaram representações na capital mato-grossense.

A indústria do açúcar tomou impulso nas margens do rio Cuiabá, onde floresceram nove usinas e muitos engenhos. Itaicí chegou a ser a quarta usina do país em produção.

A agricultura experimentou expressivo desenvolvimento na região da “Serra acima” (Chapada de Guimarães); a criação de gado espalhou-se pelos campos e pantanais próximos; e os garimpos para a exploração de diamantes começaram a surgir em regiões mais afastadas, porém dependentes de Cuiabá. Tudo isso refletiu na Capital, cuja vida social tomou impulso, especialmente no terreno cultural.

Continua...

EDUARDO PÓVOAS é odontólogo.

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