11.10.2018 | 07h55


ROBERTO DE BARROS FREIRE

A festa democrática

A democracia só funciona quando as instituições são exercidas com pessoas comprometidas com a vida pública

Dizem que as eleições são um momento de comemoração e festejos da democracia. É quando o povo exerce de fato seu poder escolhendo seus candidatos e excluindo pessoas que não se apresentaram como aptas para o exercício da política. E ainda que se possam fazer críticas às escolhas, não se pode questionar a legitimidade do evento; podemos reclamar dos eleitos, mas não se pode negar o fato de que lá estão por escolha da população, não são usurpadores. Particularmente não vi nenhum grande candidato, pelo menos nenhum com méritos para o exercício legislativo ou executivo, nenhum que merecesse meu voto e aceito as escolhas feitas pelos demais.

Em minha opinião as eleições não deveriam ser a única forma de participarmos das atividades políticas; deveriam ser no máximo um momento de escolhas de pessoas para exercerem o ônus da vida pública, e não um bônus como os “políticos” transformaram a política. Deve os eleitos ser rigidamente controlados pelos eleitores, direcionados para o certo e para o justo, e não deixar que decidam sobre nós a respeito de coisa séria como a correção e a justiça. Não deveria existir a possibilidade de reeleição, exercendo todos nós o direito da rotatividade do poder. A verdadeira atividade democrática está em exercer uma cidadania cívica e republicana, participativa e engajada na melhora do país e na execução do bem comum, na construção de políticas sociais e econômicas para salvaguardar a todos, assim como garantir direitos civis e políticos aos cidadãos. Reduzir a democracia a depositar votos nas urnas é transformar a política numa atividade profissional de alguns especialistas em pleitos eleitorais. E a política fica restrita a alguns poucos que fazem e desfazem do poder como bem entenderem.

Particularmente, nessa eleição, fiquei mais contente com os candidatos excluídos do que com aqueles eleitos. Faltou excluir vários bandidos, Aécio Neves, Renan Calheiros e Jarder Barbalho e outros, todos encrencados com a justiça criminal, mas o fato de não se ter mais alguém do clã dos Sarneys, do Edson Lobão, do Romero Jucá, do Eunício de Oliveira, do Richa, do Requião, do Gedel e tantos outros criminosos, de descendentes do Sergio Cabral, dá certo alívio, nos faz ter alguma esperança num mar de desalento gigantesco porque passa o país. Excluir esses indivíduos foi um gesto de justiça, e espero que agora que não possuem mais fóruns privilegiados, possam ser julgados, condenados e presos. O mesmo devemos esperar de Temer, que a partir de 01/01/2019 já pode ser investigado, julgado, condenado e preso, por longos anos de preferência.

A democracia só funciona quando há democratas, quando as instituições são exercidas com pessoas comprometidas com a vida pública, com indivíduos que abram mão de seu tempo particular para cuidar da coisa comum, que é a república. Os candidatos eleitos só serão de fato bons e úteis se exercermos nosso direito e dever de pressionar e influenciar suas deliberações sobre todos nós. Não esperem dos políticos o bem, o certo ou o justo, pois que isso é uma deliberação comum de todos nós, não de alguns poucos embriagados do poder político. Não haverá conserto político sem a participação da sociedade civil nas deliberações realizadas pelos políticos profissionais. Não existem salvadores da pátria, nem pessoas superiores para conduzir os homens; nós é que devemos determinar o rumo que queremos. A salvação, se existir, deve estar em nossas mãos.

ROBERTO DE BARROS FREIRE é professor do Departamento de Filosofia da UFMT

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