14.04.2019 | 14h00


TRAGÉDIA NA MIGUEL SUTIL

Morte de verdureiro atropelado por médica em Cuiabá completa 1 ano sem punição

Morte de Francisco Lúcio Maio, 48 anos, completa um ano neste domingo (14). Caso tramita na Justiça e no Conselho Regional de Medicina


DA REDAÇÃO

Neste domingo (14) completa um ano em que o verdureiro Francisco Lúcio Maio, de 48 anos, foi atropelado e morto pelo Jeep Renegade dirigido pela médica Letícia Bortolini, na Avenida Miguel Sutil, em Cuiabá. No dia do acidente, ele retornava para casa depois de um dia intenso de trabalho.

O caso ganhou grande repercussão na imprensa já que a médica tinha acabado de sair de uma festa open bar (bebida à vontade) quando atropelou o trabalhador a mais de 100 km/h em uma via onde a velocidade permitida é apenas de 60 km/h. No banco do carona estava seu marido, também médico, Aritony de Alencar Menezes. Os dois fugiram do local sem prestar socorro à vítima.

Na audiência de custódia, ao ser interrogada sobre o ocorrido, Letícia disse que achou que tinha batido em um animal e por isso não parou o veículo.

“Em nenhum momento ela demonstrou arrependimento ou nos procurou. Ainda comparou meu pai com um bicho. Isso me revoltou muito”, desabafa Francinilda da Silvia Lúcio, de 25 anos, uma das três filhas do verdureiro.

Desde o dia da tragédia, ela foi a responsável pela repercussão do caso na imprensa. Isso, na visão dela, de certa forma fez com que as autoridades agissem e que o processo tramitasse de forma mais célere na Justiça e no Conselho Regional de Medicina (CRM). 

“Eu estou muito focada nisso. Todo dia eu entro no processo, faço alguma coisa... Depois que o acidente aconteceu a minha vida e rotina, nesse um ano, é praticamente isso”, afirma.

RepórterMT

Letícia Bortolini verdureiro deletran

Médica Letícia Bortolini foi indiciada pela Polícia Civil

Francinilda destaca que a médica tirou a vida de um trabalhador, “de um pai de família” e que pede apenas para que a Justiça seja feita. “Porque é muito fácil a pessoa atropelar, tirar a vida de outra e ficar impune”, desabafa.

“Ela está viajando, trabalhando, levando uma vida normal. Recentemente postou no Instagram que está preocupada com a queda dos cabelos. Meu pai não vai ter a oportunidade de ver o cabelo cair, de ficar branco... Não está tendo a oportunidade de viajar, de acordar todo dia de madrugada para trabalhar e fazer as coisas dele. Isso me doí muito, de ver que ela tirou a vida do meu pai e até hoje não aconteceu nada”, acrescenta.  

Na Justiça e no CRM

Os últimos andamentos do processo na Justiça Criminal ocorreram entre o final de março e início de abril deste ano, em que consta um pedido da defesa da médica que solicitou um perito particular para fazer nova aferição da velocidade do Jeep na hora do acidente. A defesa também solicitou cópias de todas as provas, laudos e documentos relativos ao processo.

Já no CRM foi aberto um Procedimento Ético Profissional (PEP) para apurar a conduta da médica, que pode resultar na cassação do registro profissional, mas investigação ainda está na fase inicial, com juntada de documentos e oitivas das testemunhas.

Dia do acidente

O acidente aconteceu no dia 14 de abril de 2018 por volta das 19h30, próximo à rotatória que dá acesso ao Bairro Cidade Verde, na Avenida Miguel Sutil. Francisco voltava para casa com o seu carrinho de feira quando o Jeep da médica o atingiu próximo ao canteiro central. 

Francinilda recorda que estava indo de moto com a mãe visitar o tio em Várzea Grande quando recebeu a ligação de uma conhecida dizendo que o seu pai tinha sofrido um acidente.  “Não passou pela minha cabeça que ele estaria morto. Pensei que tinha se machucado, quebrado uma perna, ou coisa do tipo”.

Conta que quando chegou ao local se deparou com o corpo do pai “abraçado” numa árvore.

“Só quando os médicos do Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] atestaram a morte que caiu a ficha. Foi aí que desabei de vez e comecei a chorar compulsivamente”, lembra. “Só depois que o meu pai faleceu as autoridades resolveram colocar faixa de pedestre, redutor de velocidade e semáforo no local do acidente”.

Quem era Francisco

Francisco Lúcio Maia era natural da Paraíba e veio para Mato Grosso com apenas 18 anos e depois mandou buscar a esposa e filhas. Em Cuiabá, garantiu o sustento da família a partir da venda de hortaliças, frutas e verduras por mais de 20 anos.

Francinilda recorda que o pai acordava todo dia às 3h e fazia uma “viagem” de 30 quilômetros até o Bairro Jardim Industriário, em Cuiabá, para comprar produtos. Depois voltava para sua casa, empacotava as verduras, as colocava no carrinho e por volta das 5h30 seguia para o seu ponto comercial em frente ao posto de saúde do Bairro Cidade Alta, também na Capital.

“Eu morava ao lado do meu pai no Bairro Coophamil [Cuiabá]. Então eu saia de moto para trabalhar e todo dia eu via ele arrumando a verdura bem cedinho. Eu falava ‘sua benção pai’ e seguia viagem. Hoje em dia eu não tenho mais isso”, lembra a filha com a voz embargada.

Denuncia MPE

Em 11 de setembro do ano passado, cinco meses depois do acidente, o promotor Vinicius Gahyva Martins, da 1º Promotoria de Justiça Criminal, denunciou Letícia pela prática de quatro crimes: homicídio doloso (quando não há intenção de matar), omissão de socorro, embriaguez ao volante, e por se afastar do local do acidente fugindo da responsabilidade.

No documento, Gahyva destaca que na ocasião do acidente a médica provocou a morte do verdureiro, "deixando de prestar-lhe imediato socorro, bem como afastou-se do local do acidente para fugir da responsabilidade civil e penal".

O promotor ressaltou também que mesmo após o atropelamento, a médica conduziu o veículo - Jeep - sob a influência de bebida alcoólica.  

O juiz de Direto Flávio Miraglia Fernandes recebeu a denúncia em 19 de setembro – oito dias depois de o documento ser protocolado pelo MP na Décima Segunda Vara Criminal.

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(1) COMENTÁRIOS

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ana  19.04.19 14h52
em outro site li que ela pediu o reembolso ao seguro bradesco alegando que um carrinho de verdura havia batido nela.

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